quarta-feira, 11 de julho de 2012

Hoje eu levantei da cama e me vesti inteira de mim. Hoje eu andei pela rua que eu moro e a rua que eu moro parecia uma rua de outro país, hoje me senti estrangeira no que era minha zona de conforto. Tive fazendo um percurso habitual, a mesma deliciosa sensação de quando viajo para um lugar estranho a mim, meu olho pulsava de curiosidade e sem esforço algum se interessava por tudo que acontecia. Penso que talvez, até hoje, tenha morado nessa rua, mas que talvez há algum tempo ela tenha deixado de morar em mim e as mudanças sutis que ela sofrerá, tenham passado todas desapercebidas ou escondidas e hoje decidiram dançar na minha cara. Por quanto tempo podemos olhar para as mesmas coisas ?

Quem deu de viver dentro do fogo, queimado é que não morre.

A arte lateja, chupa, pulsa.
Ou você goza, ou você agoniza
Quando eu era menina,
Eu sentava na janela
Via escorrer as gotas
Da cachaça e da panela
Tinha medo de crescer
E assim poder morrer
Como morriam no céu 
As estrelas de papel
E os verbos do meu ser.

Pelos verso que falei
Logo cedo dei pra muda
Por tanto me desconhecer
Fez histórias não de mim
Ai eu cresci bem sofrida
Com um sol no meu pescoço
E um som bailarina
Um poeta me escolheu
Mais crescida virei musa
Não sou pronta, não sou obra
Triste, eu não sou o fim

Ah me de sua mão
Encoste sua palma
Na cor da minha alma
Veja a musa chorar

Ah me dê sua mão
Encoste sua palma
Na dor da minha alma
Veja a musa chorar

Me desculpe amado
Senhor poeta, cansado
Mas me parto daqui
Vou parir o que sou
Não me escreva mais nunca
Pois eu quero ser obra
Não humana, não mais.

Ah me dê sua mão
Encoste sua palma
Na dor da minha alma
Veja a musa chorar

Ah me dê sua mão
Encoste sua palma
Na dor da minha alma
Veja a musa chorar
Quando eu nasci
Me esfregaram na cara um sonho
Ele borrou-se de mim
Mas mesmo assim
Eu envelheço

Quando eu descobri palavra
Acabou a tinta do mundo
Eu vim de uma cidade de mangues
Dei para fazer poesia 
Com sangue.
Mas mesmo assim
Eu entardeço

Foi por ti que aprendi a língua
E inventei minhas falas
Todas elas ontem me faltaram
No segundo em que toquei
O seu cheiro de ameaça
Mesmo assim eu amanheço

Sou da cara menina
E do peito antigo
Por que a vida em mim demora
E eu a esperei sentindo frio
Com fome de quem chora
Olho tudo que conheço
Me interesso no começo
Mas mesmo assim
Me acabo a esmo.

Vou sentir
Falta de tudo que nao te escrevi
Vou amar todas as linhas
Suas que eu jamais li
Vou reclamar das unhas curtas
Que nao foram firmes
Ao te abrir
E no embrulho eu vou guardar
o presente que pra sempre
no escuro
Eu vou cantar.
lararalararara
Eu vou cantar.
E a menina, com medo de comer estragado, jogava no lixo amores antes do prazo.
Saindo da Livraria Travessa de Ipanema, vejo, do outro lado da rua, uma criança com menos de um ano, sentada na calçada.. Preso a sua mãozinha por um fio de naylon, um balão branco de gás descia e subia guiado por seus movimentos e a menininha ria sem parar assistindo ao balão que comandava. Enquanto sua mãe, visivelmente alterada, exalando cheiro de cola, pedia moedas aos carros que passavam. Ahhhh a poesia concreta é tão dissonante.